O mistério em torno do pecado dos anjos (II)

Obra de Mihály Zichy retratando a queda de Lúcifer

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 06 a 12 de julho/2015 | Ano 9 – Nº 687.

Marcos Antonio Fiorito *

“Digno arremate e coroa da obra de suas mãos”, assim São Tomás de Aquino explica a razão pela qual Deus quis que houvesse o mundo angélico. O grande luminar da teologia medieval ainda completa, dizendo que os anjos são a porção mais formosa, nobre e perfeita do universo.

Como já vimos no artigo anterior, em muito a natureza angélica excede a débil natureza humana; no entanto, também parte dos anjos pecou e foi devidamente sentenciada ao suplício eterno. Em torno da condenação imediata deles, é comum ouvir a seguinte pergunta:

 — Por que após o seu pecado, Satanás e seus anjos foram precipitados imediatamente no Inferno. Por que não tiveram a mesma chance de Adão, Eva e os demais homens, de emendar-se?

Por uma série de características muito próprias da natureza angélica, temos que no anjo não se dá o arrependimento de seus atos da mesma forma que observamos na natureza humana. Ao homem é comum estar decidido a um determinado sentido e depois mudar de opinião de repente, por julgar que de outra forma agiria de modo mais perfeito. Como diz a ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi, “La donna è mobile qual piuma al vento, muta d’accento e di pensier”. Embora fale do gênero feminino, podemos aplicá-la perfeitamente a todo o gênero humano: “somos volúveis como pluma ao vento, mudamos de sotaque e de pensamento”.

De fato é muito comum o ser humano agir de forma indevida, insegura, depois se arrepender, tomar outro caminho. Mas tal não acontece com a natureza dos anjos, pois, como nos ensina São Tomás de Aquino, tem um conhecimento mais perfeito que o nosso; sua origem não está nos seres do mundo exterior, nem adquirem a ciência mediante um raciocínio progressivo, pelo contrário, abarcam com um só olhar todos os princípios e consequências.

Quando Lúcifer foi submetido à prova, ele viu com total clareza que ao rejeitar submeter-se a Deus, estaria contrariando os desígnios divinos, agindo contra si mesmo e precipitando-se no Inferno.

Por isso não foi dada uma nova chance aos demônios. E o mais espantoso está no fato de que, ainda que lhes fosse dada, eles a rejeitariam. Embora seja difícil de ser compreendido por nossa natureza volúvel, com os anjos passou-se isso de espantoso: quando escolheram o mal, foram petrificados nele.

E o mesmo São Tomás explica que, no primeiro instante de sua criação, os anjos receberam a graça santificante, e esta os fazia filhos adotivos de Deus e herdeiros da glória eterna. No momento da prova, os anjos que permaneceram bons passaram imediatamente do estado de graça para o estado de glória, alcançando, assim, para sempre a bem-aventurança.

Como foi explicado em nosso primeiro artigo sobre o pecado original, para receber um determinado prêmio é preciso antes passar pela prova. E a prova dos anjos consistiu num ato de livre arbítrio. A graça os inclinava a submeter-se a Deus por inteiro e, através dela, conquistar o dom da glória. Mas os anjos maus tiveram um reprovável sentimento de orgulho, queriam ser como Deus e gozar de uma felicidade plena, dissociada do Criador.

* O autor é teólogo e redator católico

(Autoriza-se reprodução do artigo com citação do autor.)

Veja também: O mistério em torno do pecado dos anjos (I)

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