Você sabe o que é ócio criativo?

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 14 a 20 de agosto/2017 | Ano 11 – Nº 789.

Marcos Antonio Fiorito *

 photo credit: L’art au présent BERNARD Emile,1888 – 
Madeleine au Bois d’Amour (Orsay) – Detail 2
 via photopin (license) 

Estamos acostumados a ouvir que “o ócio é o pai de todos os vícios”. Em outra versão, “a preguiça é a mãe de todos os pecados”. Será que podemos fazer uma distinção do ócio enquanto sinônimo de preguiça e do ócio enquanto um período de inércia que é neutro e ainda não contaminado pela languidez? Provavelmente, sim! Antes que algum leitor menos versado em letras interrompa a leitura e recorra a um dicionário para saber o significado de languidez, adianto-lhe aqui, poupando-o do trabalho. Lânguido é aquele que está abatido, sem forças, frouxo…

Estamos sendo protagonistas de uma civilização que há pelo menos um século e meio vive num ritmo desvairado. E quanto mais avançamos tecnologicamente, mais corremos, mais desvairados somos. Imaginar como era lentíssima a comunicação em pleno regime feudal, durante a Alta Idade Média, quando os mares estavam empesteados de piratas árabes, fazendo incursões na costa da Europa, as fronteiras indefinidas e as cidades muradas! Levou um certo tempo até que venezianos e genoveses se encarregassem de limpar o Mediterrâneo, enquanto os portugueses e espanhóis expulsavam os mouros de suas terras. Só assim foi possível estabelecer um comércio mais dinâmico entre as nações europeias e existir uma comunicação mais rápida entre elas, o que não quer dizer muito para os moldes atuais…

De tanto correr, corre-se hoje sem saber a razão de tanta pressa. E, com isso, o homem moderno deixa de lado momentos de quietude que são necessários ao equilíbrio mental. A psiquiatria e a psicologia têm cuidado constantemente de pacientes com sérios problemas de fadiga por conta de uma espécie de hiperatividade mental. São pessoas cujos cérebros trabalham como se estivessem ligados no 220v, mentes que não conseguem descansar, ainda que dormindo – ou tentando dormir…

E a grande realidade que está concernida nisso tudo é que a porcentagem da população que convive com tal problema não é nada desprezível. Pelo contrário, o número de hiperativos mentais só cresce.
Em contrapartida, a ciência começa a olhar com bons olhos para aquela ociosidade boa que permite ao ser humano dar oportunidade para a criatividade. Isso mesmo! Quando o homem equilibra bem o seu tempo e dá a si mesmo chances de contemplar, de ficar inativo por alguns instantes, ele é recompensando pela criatividade. Daí surgem muitas ideias que beneficiam a todos nós, que nos trazem melhorias e descobertas sensacionais.

O ócio criativo é inimigo da atividade improdutiva. O que mais vemos hoje é gente que não consegue mais meditar, não consegue mais contemplar, vive o tempo todo se ocupando para fugir de um estado de equilíbrio mental saudável que é indispensável para a nossa psique. Exemplo disso nós temos quando entramos no metrô e vemos 80% dos passageiros com seus smartphones nas mãos. Uns navegam na internet; outros conversam pelo WhatsApp; os mais novos, mergulhados em jogos, dedilham a tela de forma alucinante; homens de negócios respondem a e-mails e aproveitam para fazer ligações, etc. Enfim, nota-se hoje que sentar e tirar o celular do bolso e começar a deslizar o dedo na tela já se tornou um hábito comuníssimo.

O termo ócio criativo tem um “pai”, e ele se chama Domenico de Masi. Interessante ver que para ele o lazer tem um papel primordial se unido ao estudo e trabalho. E para concluir este artigo, nada mais justo que encerrá-lo com uma frase perspicaz do eminente sociólogo e cientista italiano: “Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade.”

Vamos tirar o chapéu para o Professor de Masi, porque ele, sem dúvida, merece!

* O autor é teólogo e escritor. | mfiorito21@gmail.com

Autoriza-se publicação com citação do autor!

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