Mossul e a queima de livros – A História se repete

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 10 a 16 de julho/2017 | Ano 11 – Nº 784.

Marcos Antonio Fiorito *

  photo credit: Jason Verwey Burning Books Page1 via photopin (license)

Foi com invulgar sensação de tristeza que li na História Universal de Césare Cantú que os muçulmanos, ao tomarem a Pérsia, queimaram todos os livros que continham séculos da História daquele povo. Simplesmente destruíram as narrativas que hoje serviriam para enriquecer e entender melhor o passado do Irã. A ordem foi dada pelos sacerdotes que, singelamente, determinaram: “tudo o que alguém precisa saber está no Corão, se não faz parte dele, não interessa a ninguém. Ponham fogo em tudo!”.

Eis que, como sói acontecer, a História se repete, só que dessa vez no Iraque, e o crime foi cometido pelo famigerado Estado Islâmico, em 2014. Segundo a notícia de Anup Kaphle, do site BuzzFeed, “A Universidade de Mossul, fundada em 1967, era muito respeitada na região — ela oferecia cursos de medicina e engenharia e possuía programas de doutorado em várias áreas, incluindo História e Ciência Política. A biblioteca central da universidade continha centenas de milhares de livros em árabe e inglês, mapas históricos e periódicos da era do Império Otomano, assim como manuscritos islâmicos antigos, incluindo um Alcorão do século 19” (fonte: www.buzzfeed.com).

A notícia narra, ainda, que os militantes do EI obrigaram os professores do local a reescreverem os livros didáticos, mas segundo o novo sistema de ensino que seria implantado por eles. Porém as forças do governo iraquiano avançaram na região, obrigando os terroristas a recuarem. Em meio a isso, um homem chamado Muhammad Samir deu início a uma campanha de restauração da biblioteca destruída, e livro por livro…

O filósofo francês de origem alemã Eric Weil, afirmou, certa vez, que “a História é a aventura da liberdade”. A atitude de Samir está mais do que alinhada a esta realidade. Enquanto os adeptos do fundamentalismo religioso entendem que devem destruir o passado e tudo aquilo que para eles representa uma ameaça a suas crenças, o voluntário iraquiano compreende que a cultura é uma forma de libertação da ignorância; compreende que não é preciso destruir a doutrina oposta para se manter convicto daquilo que pensa e crê como verdade de fé.

Nesse sentido, é digno de pena ver o homem que teme conhecer outras doutrinas porque elas podem representar uma ameaça às suas convicções. Se ele está, de fato, convicto do que crê, conhecer o que outros pensam não lhe trará riscos, mas, muito pelo contrário, o tornará ainda mais seguro do que pensa.

Causa perplexidade ver que, passados tantos séculos, ainda temos instituições religiosas que proíbem seus adeptos de conhecer teorias adversas por temerem perdê-los. Se lhes parecem doutrinas equivocadas, então procurem desconstruí-las, refutá-las… Temos um exemplo disso com a Igreja Católica, que, em tempos idos, lançou mão da apologética: um sistema de exposição lógica, muito bem elaborado, que procura provar com argumentos sólidos e variados que uma determinada doutrina é errada e, até mesmo, nociva.

A apologética serviu à Igreja – e, de certa forma, até hoje ainda a serve – como forma de defesa da sua fé, de seus valores, de seus ensinamentos. Quem acredita estar certo do que pensa, deve ter meios de defender e provar que está com a razão, do contrário, será notoriamente abalado por qualquer argumento um pouco mais estruturado, como uma folha seca que se destaca do tronco de uma árvore ao soprar do vento.

* O autor é teólogo e escritor. | mfiorito21@gmail.com

Autoriza-se publicação com citação do autor!

 

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