Uma sociedade que nos impele a ter e não ser

 Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 26 de junho a 02 de julho/2017 | Ano 11 – Nº 782.

Marcos Antonio Fiorito *

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Quem teve a dita de ler a obra simples, mas cheia de inocência e sentido, de Saint Exupery, “O pequeno príncipe”, conhece bem a frase: “O essencial é invisível aos olhos”. Apesar de a frase ser de todo bela e para lá de verdadeira, infelizmente nossa sociedade está longe de concebê-la como lema e, sobretudo, vivenciá-la.

Quem nunca ouviu de algum familiar, quando criança, que “é preciso levar vantagem em tudo”? Ou “o mundo é dos espertos, os bobos ficam para trás!”. Porque, em realidade, importa ter e não ser. A régua que mede a felicidade segundo o mundo hodierno é possuir dinheiro e bens o suficiente para que se possa ostentar e ser tido por todos como alguém importante. Quando “importante” virou sinônimo de ser rico ou classe média alta. Você é alguém quando tem dinheiro suficiente para gastar e, melhor ainda, luxar. Faz lembrar do cantor sertanejo que quando era motoboy, via-se desprezado por muitas garotas, no entanto, quando apareceu nas ruas de sua cidade com um carro bastante caro e prestigioso, viu “chover em sua horta” muitas candidatas, incluindo as que o desprezavam antes por conta de sua profissão anterior. O fato foi, inclusive, tema de uma música sua.

Em verdade, a sociedade – hoje e em outros tempos –, exerce forte pressão para que o indivíduo tenha e não seja. A máquina de propaganda espetacular sob a qual vivemos nos impele ao consumismo exacerbado. A filosofia consumista repete o refrão de que você não será feliz enquanto não estiver rodeado de ouro e prata, de bens e patrimônios de toda ordem. Quanto mais riquezas possuir, mais chance você terá de encontrar a felicidade.

Faz-nos lembrar de uma frase corriqueira dos anos 70 e 80 que acompanhava, mor das vezes, a saudação de passagem de ano: “Feliz Ano Novo! Saúde e dinheiro no bolso, que é o que importa!”. Havia, inclusive, uma musiquinha bastante brega, que dizia: “Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender!”.

A máxima de que se deve ser mais esperto do que os outros e de que tudo vale a pena para enriquecer, ainda que de modo ilícito, justamente encontra repercussão nas pessoas pelo fato de que se acredita que é mais importante ter do que ser. São pessoas que se desfazem de princípios fundamentais, como: não roubar, não prejudicar de nenhuma forma o próximo, não lesar de nenhuma forma a nação, ser honesto custe o que custar, agir com cidadania, etc. Isso explica, perfeitamente, porque acompanhamos hoje nos veículos de imprensa brasileiros, aos borbotões, toda sorte de notícias escandalosas envolvendo empresários e políticos – metidos até o pescoço – em atos degradantes de corrupção.

Sacrifica-se o próprio caráter em troca da ostentação de valores materiais que, muitas vezes, são delapidados pelos herdeiros sem o menor escrúpulo. A vida consumista é superficial e transitória. Ninguém passa para a História porque foi muito abastado. Fala-se tanto de Confúcio, Alexandre Magno, Júlio César, Cleópatra, Nero, Pasteur, Madame Courie, Hitler, Einsten, Madre Teresa de Calcutá, Steve Jobs e tantos outros porque deixaram um legado para a humanidade, seja ele positivo ou negativo. Alexandre Magno era um homem que detinha muitos tesouros e poder, no entanto o conhecemos por sua habilidade na guerra, suas conquistas e o vasto império que formou. O mesmo pode-se dizer de Júlio César.

A essência do ser é algo que deve prevalecer sempre sobre o que nos cerca. Ser fiel aos seus princípios, ter vida interior e espiritualidade (não só do ponto de vista religioso, mas no sentido de quem alimenta seu espírito com boas energias) traz muito mais paz e alegria do que qualquer conta recheada em banco, um belo carro e estar rodeado de gente falsa que se faz amiga por interesse.

* O autor é teólogo e escritor. | mfiorito21@gmail.com

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