Os novos kamikazes

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 18 a 24 de julho/2016 | Ano 10 – Nº 737.

Marcos Antonio Fiorito *

Era o ano de 1281, o país do sol nascente, o Japão, imperava sereno em seus mares, até que, assustadoramente, um vigilante nipônico avista a aproximação de uma frota espetacular de três mil navios, carregada dos temíveis combatentes mongóis. O informante corre para advertir os samurais do ataque do inimigo que se aproxima. Os nobres guerreiros japoneses, cheios de coragem, se dirigem para a praia à espera do desembarque de 160 mil soldados chineses, coreanos e mongóis. A situação era crítica, pois o número de samurais e seus armamentos eram muito inferior. Estava por vir um verdadeiro massacre quando, de repente, um tufão poderoso destruiu a esquadra mongol, reduzindo a pedaços as suas embarcações e afogando o seu contingente. Os samurais vibraram! Estavam salvos por aquilo que chamaram de kamikaze, em português “vento divino”.

By U.S. Navy [Public domain], via Wikimedia Commons

Séculos depois, em outubro 1944, no final da Segunda Guerra, as forças armadas do império japonês encontravam-se muito debilitadas. Apesar de tudo indicar que o Japão perderia a guerra, o orgulho nipônico não se dobrava; foi quando o vice-almirante Takijiro Onishi propôs, como nova tática de batalha, o envio de pilotos suicidas para atacarem os navios de guerra norte-americanos. Os bravos soldados foram apelidados de kamikazes, em alusão ao tufão que salvou o Japão no século XIII d.C.

Os estragos infligidos à marinha norte-americana foram de grandes proporções, porém insuficientes para evitar a derrota japonesa. Por mais que a tática do almirante Onishi tenha sido horrivelmente agressiva e mortal, o número de aviões era limitado, restringindo com isso, também, a ofensiva suicida.

Eis que hoje o mundo vem sendo novamente assolado por aquilo que poderíamos chamar de novos kamikazes. Há algum tempo foi postado no Youtube o vídeo de um terrorista islâmico conduzindo um caminhão carregado de explosivos. Ele dirigiu-se até um edifício público e acionou o detonador. O caminhão explodiu, causando uma devastadora destruição no entorno. O vídeo era uma homenagem ao “mártir”, que alcançava assim o paraíso prometido aos muçulmanos que morrem por amor à fé.

Os novos kamikazes têm inúmeras formas de se apresentar e executar os seus planos sombrios. Os homens-bomba se tornaram os mais terrivelmente célebres, porém vem aumentando o número dos que atacam com fuzis ou metralhadoras. Também, como no vídeo citado acima, temos os suicidas que dirigem carros e caminhões-bomba. E agora na França assistimos atônitos ao surgimento de uma nova modalidade: um islâmico que atropela com um caminhão um número assustador de pessoas que assistiam às comemorações do aniversário da Queda da Bastilha, fato que marcou o início da Revolução Francesa, em 1789.

E não nos esqueçamos do fatídico 11 de setembro de 2001, quando os sequazes de Osama Bin Laden derrubaram as Torres Gêmeas em Nova York.

Como combater tal inimigo? É possível identificá-los, contá-los e impedi-los de alguma forma? Não é possível conhecer o número, entretanto sabe-se que há uma quantidade formidável de gente disposta a morrer por sua religião. Dizem os especialistas que muitos japoneses de 1944 se ofereceram para morrer por amor à pátria, porém é sabido também que grande parte foi forçada a se voluntariar. Ou seja, o fanatismo carrega consigo uma força ainda maior, é capaz de atitudes ainda mais extremas, insondáveis, que desafiam a lógica humana e o instinto de conservação. Como o mundo irá enfrentar tal inimigo? Será possível vencê-lo? O que mais vem por aí? São perguntas que ficarão sem resposta, ao que parece, por muito tempo…

* O autor é teólogo e docente de ensino superior

(Autoriza-se reprodução do artigo com citação do autor.)

Veja também: Movimento feminista e a expansão muçulmana

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