Estado Islâmico e a destruição da História

By Fulvio Spada (https://www.flickr.com/photos/lfphotos/5198115876/) [CC BY-SA 2.0], via Wikimedia Commons

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 20 a 26 de junho/2016 | Ano 10 – Nº 733.

Marcos Antonio Fiorito *

Destruir um templo historicíssimo construído por povos da antiguidade, em nome da religião maometana, alegando combate à idolatria, é algo que nos reporta a tempos de franca obscuridade cultural e intolerância. Sem contar que não são templos em atividade, são apenas relíquias do passado, que nos ajudam a contar melhor a história da civilização.

Lamentavelmente, é algo que se tornou habitual para os militantes do Estado Islâmico. Como se fosse preciso destruir a História para que o passado não sirva de ameaça ao quiçá triunfo da religião maometana, num futuro próximo.

Entre os lugares históricos que já foram alvos da ira terrorista, conta-se o Templo de Baalshamin, na cidade de Palmira, na Síria, que data do século II da era cristã: Dura Europos, cidade na fronteira da Síria com o Iraque, local que teve especial importância no século III a.C.: a cidade de Mari (séc. XXX a.C), um dos nichos arqueológicos mais importantes da fronteira Síria com o Iraque; o mosteiro do mártir Santo Elian de Homs, local de peregrinação dos cristãos. Também a cidade de Apameia foi terrivelmente saqueada e destruída. Atacaram as ruínas da antiguíssima cidade de Nínive, o mesmo fizeram com Hatra, construída pelo Império Selêucida. Explodiram a biblioteca de Mossul, pulverizando documentos importantíssimos da história árabe e devastaram as ruínas de Nimrud, construída há 32 séculos.(1) Paremos por aqui…

O certo é que o prejuízo cultural e arqueológico são imensos e incalculáveis. São patrimônios da humanidade que se perdem para sempre, não há como recuperá-los, como as muralhas de Nimrud, destruídas pelo Estado Islâmico com tratores, escavadeiras e explosivos.

Contemplando o que restou de uma cidade como Palmira, tem-se a sensação de que com ela também morreu parte da identidade histórica da humanidade, pois o mundo conserva os resquícios do passado para compreender com mais exatidão o seu presente e projetar melhor o seu futuro.

Os monumentos da antiguidade que chegaram heroicamente até nós — resistindo a terremotos, furacões e guerras — são como testemunhas do tempo, que atestam a existência de povos e culturas extintas, assentados majestosamente sobre os seus alicerces, como as pirâmides do Egito e o Coliseu de Roma. São obras que confirmam maravilhosamente a narrativa dos historiadores.

Destruir os marcos preciosos da história é o mesmo que apagar o passado, pelo menos em parte, condenando a humanidade a permanecer sem memória. Assemelha-se ao que disse o grande orador romano Marco Túlio Cícero, quando assinalou que “não saber o que aconteceu antes do teu nascimento, seria para ti a mesma coisa que permanecer criança para sempre”.

Estamos assistindo a uma destruição que só é comparável à devastação dos bárbaros na época do Império Romano. Aquela gente, com suas hordas furiosas, derribou construções imponentes e assolou cidades majestosas que, outrora, fizeram a glória dos senhores do mundo.

Quando nos deparamos com tanta selvageria, crueldade e ignorância, somos tentados a dar razão ao poeta irlandês James Joyce, cuja opinião é de que “a História é um pesadelo do qual tentamos acordar”.

(1) Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/01/13-locais-historicos-destruidos-pelo-estado-islamico.html

* O autor é teólogo e redator católico

(Autoriza-se reprodução do artigo com citação do autor.)

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