É correto dizer “Alma do Purgatório”?

By GFreihalter (Own work) [CC BY-SA 3.0], via Wikimedia Commons

Alisson Francisco Rodrigues Barreto[1]

Um questionamento muito comum acerca da expressão “alma do purgatório” é sobre o fato de se referir a uma alma, sabendo que o ser humano é composto de corpo e alma espiritual. Para muitos, referir-se a uma pessoa como alma seria negar um corpo a ela. Até que ponto poder-se-ia dizer que isso procede?

Ora, se um indivíduo diz: “devemos zelar pelos corações sofridos de nossas cidades, fruto do abandono e da falta de misericórdia”; ou outro diz: “infelizmente, há muitas mentes vazias por aí, em decorrência do péssimo sistema educacional”. Acaso não se depreende que aqueles corações e aquelas cabeças dos exemplos supracitados não subsistem em pessoas? Dizer que uma pessoa vai ao dentista não significa que ela não tenha braços. Quando se diz que um jogador em campo não está vestindo a camisa do time não significa que ele esteja sem camisa ou com a camisa de outro time. Que isso significa?

Ora, falar em alma do purgatório não significa uma alma sem corpo ou alma sem espírito. Poder-se-ia chamar também espírito do purgatório, concorda? Mas aí o leitor poderia questionar se não se trataria de seres meramente espirituais ou seres pertencentes ao purgatório. Nota-se que tal análise requer alguns esclarecimentos.

Primeiro, o termo “alma do purgatório” refere-se a uma pessoa humana em estada purgante. A menos que se diga que os anjos encarregados de ajudar a purgação de tais homens sejam também considerados anjos do purgatório, uma vez que são pessoas angelicais encarregadas da função purgatória de purificar pessoas humanas, preparando-as para o Céu.

Segundo, uma alma do purgatório não é uma alma pertencente ou de natureza purgante ou purgatorial. De modo que seria mais adequado dizer alma no purgatório ou melhor: pessoa no purgatório. Talvez esse termo não tenha sido usado para se evitar o risco de alguém acreditar que o termo “em” (no=em+o) pudesse se referir a algum lugar físico. A natureza de uma dita alma do purgatório não é propriamente uma alma de lá, mas uma alma que está passando por lá com destino ao Céu. Observe que se João, no corredor, bate na porta do banheiro e um outro João responde do banheiro, tem-se que João do banheiro respondeu a João do corredor. Neste exemplo, percebe-se que o segundo João não é um morador do banheiro nem tem sua natureza referente ao banheiro. Assim também uma alma do purgatório não é uma alma de natureza diferente das almas da terra, mas uma alma de mesma natureza e em situação diferente.

Diz-se que o purgatório é a antessala do Céu, nesse sentido, uma alma em estado de purgação é considerada como uma alma passando por um estágio de purificação em uma estada imediatamente antes de chegar à Morada Celeste.

Por óbvio que, em se tratando de purgatório, tal estada não se refere a um lugar físico, mas à realidade de um estágio pelo qual passa um espírito humano antes de chegar ao Céu.

Diante da explanação, é possível compreender algumas coisas sobre as almas do purgatório. Resumindo algumas delas:

1. As almas do purgatório não são seres de apenas almas, mas pessoas humanas com corpo extratemporal e alma espiritual. São pessoas no purgatório, ou melhor, pessoas em purgação;

2. As almas do purgatório são almas que estão passando pelo purgatório:

  1. não têm o purgatório como destino final
  2. não são originárias do purgatório
  3. não pertencem ao purgatório
  4. não têm natureza de purgatório

3. As almas do purgatório não são pessoas condenadas, ainda que seus sofrimentos lhes deem aparência de condenadas.

Explicando melhor o item 3: quando uma pessoa tem parada cerebral é tida como morta no mundo e segue para o juízo individual, onde será condenada ou salva. Se condenada, vai para o Inferno eternamente; se salva, vai para o Céu eternamente, podendo ir diretamente para o Céu ou passar pelo purgatório, antes de ir para lá. Se a pessoa, ao morrer, estiver plenamente santa, vai direto para o Céu, pois já não há nada nela que não tenha sido cristificada. Se a pessoa ainda mantém algumas imperfeições, tem-se que ela não está morta espiritualmente (em vias de inferno) e nem está santa perfeitamente (apta ao Céu), ocasião na qual ela é preparada para o Céu. A essa preparação para o Céu dá-se o nome de Purgatório.

Assim, podemos dizer que se chama “alma do purgatório” uma pessoa humana que está em estado de preparação para o Céu.

Muitas vezes uma alma do purgatório chega ao estágio de purificação com tantas manchas que se apresenta com aparência de alma condenada. Por sua falta de mérito, uma pessoa talvez até a condenasse se não fosse a misericórdia divina. Mas também é pela misericórdia divina que somos salvos. Ninguém vai ao Céu se não passar pela misericórdia divina!

É a Misericórdia Divina que purifica os santos ainda no tempo e os conduz diretamente ao Céu. Também é a Misericórdia Divina que permite a uma pessoa não perfeita em santidade poder passar pela purgação extratemporal (purgatório) para ser preparada para o Céu. Foi a Misericórdia Divina que nos enviou os profetas e depois Nosso Senhor Jesus Cristo. É a Misericórdia Divina que nos concede os sacramentos, pelos quais somos salvos.

Quando um homem age em misericórdia, ele age em coração que vai ao encontro do miserável, impulsionado pelo amor de forma unitiva ao Amor, que o impulsiona a dignificar o sofredor. Em tal ato, o misericordioso purga seus pecados, pois o amor lhe faz sofrer com o sofredor. De modo que o sofrimento na Terra é um purgatório antes da morte, ou seja, um purgatório temporal. Diferentemente, do purgatório pós-morte, que é extratemporal. Mas ambos preparam para a realidade celeste.

Notadamente, há uma relação muito grande entre purgatório e cruz. Ambos são instrumentos do amor misericordioso de Deus, que cura e salva!

Assim, uma alma do purgatório (um falecido que está no purgatório) pode ser misericordiosa para com os que estão na Terra e uma alma no mundo pode ser misericordiosa para com aquelas que estão no purgatório. Essa solidariedade misericordiosa é um amor eclesial por meio da qual uns rezam pelos outros, fortalecendo-os mutuamente.

Maceió, 28 de maio de 2016,

Sob a necessária súplica ao Sacratíssimo Coração Misericordioso de Jesus,

[1] Poeta, filósofo, bacharel em Direito, pós-graduado. Ex-seminarista, blogueiro e vlogueiro católico.

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