Francisco e os casais de 2ª união

By J.alvarezs (Own work) [CC BY-SA 4.0], via Wikimedia Commons

Artigo publicado no jornal Alagoas em Tempo, edição de 11 a 17 de abril/2016 | Ano 10 – Nº 723.

Marcos Antonio Fiorito *

Invariavelmente o mundo midiático faz repercutir a ideia de que algum dia a Igreja Católica poderá abrir mão de alguns de seus preceitos mais conservadores. E isso alimenta em muitos cristãos liberais a esperança de um dia ver um Papa aprovar o uso indiscriminado dos preservativos, o divórcio, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Quando Francisco ascendeu ao pontificado, o mundo assistiu a um Papa ousado, destemido e muito seguro do que quer. Com sua fala de improviso, seu jeito simples e despretensioso, agradou milhões de católicos e não católicos. Dispensou, inclusive, os aposentos do Palácio Apostólico para morar na Casa Santa Marta, que desde 1996 foi designada para ser o lugar de descanso dos cardeais reunidos em conclave.

Tais atitudes levaram muitos a acreditar ter chegado à cátedra de São Pedro, por fim, o homem que iria mudar os costumes da Igreja, modernizando-a segundo as necessidades do mundo.

E havia um bom pretexto para isso: dois sínodos (assembleia especial de bispos para discutir assuntos de importância para a Igreja) foram convocados para tratar sobre a crise da família em 2014 e 2015. Francisco pediu, justamente, especial atenção nas questões mais intrincadas, como dos casais de segunda união.

Eis que, finalmente, no último dia 19 de março, como peça conclusiva dos sínodos, foi publicado pelo Vaticano o documento Amoris Laetitia (“A Alegria do Amor”), abordando diversos assuntos em torno da crise familiar, não só no contexto moral, mas também cultural e social.

Entretanto, mais uma vez os cristãos liberais e os laicos tiveram suas expectativas frustradas, pois embora a exortação apostólica recomende que os clérigos não afastem os recasados da Igreja e trate com respeito aos homossexuais, em nenhum momento ela traz uma mudança substancial na doutrina católica.

E por que é tão difícil para um Papa, até mesmo inovador como Francisco, romper com o Magistério Eclesiástico? Por uma razão muito simples: todo corpo doutrinário da Igreja Católica tem seus fundamentos na Revelação Divina, e esta, por sua vez, tem como fontes as Sagradas Escrituras (Bíblia) e a Tradição.

O Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã nos ensina que “a Tradição é a palavra de Deus não escrita, porém comunicada de viva voz por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, e que chegou sem alteração, de século em século, por meio da Igreja, até nós”. Seus ensinamentos “acham-se principalmente nos decretos dos Concílios, nos escritos dos Santos Padres, nos atos da Santa Sé, nas palavras e nos usos da Sagrada Liturgia.”

Particularmente falando, no respeitante à proibição da homossexualidade e do divórcio, há trechos claríssimos na Bíblia, como podemos encontrar em Mc 10, 1-12 e Rm 1, 27. Portanto, nem é preciso que recorramos à Tradição, pois na própria Escritura Sagrada temos bem claro o pensamento divino a respeito.

Por tudo isso, podemos concluir que é impossível à Igreja abrir mão de seus preceitos, pois seria o mesmo que rasgar as fontes da Revelação Divina. Se a Igreja deixar de se pautar pela Bíblia e pela Tradição, ela deixará de ser cristã, ou seja, deixará de ser ela mesma. Será qualquer outra coisa, uma seita a mais, entre tantas, menos a Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.

* O autor é teólogo e redator católico

(Autoriza-se reprodução do artigo com citação do autor.)

Veja também: Diferença entre Ética e Moral

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